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Os seguros paramétricos e os riscos das alterações climáticas

06.05.2022
Os seguros paramétricos e os riscos das alterações climáticas
1. Quais as características dos seguros paramétricos? Quais os pontos fortes na contratação deste tipo de seguro? 

Os seguros tradicionais que conhecemos e utilizamos no nosso dia a dia são, na sua essência, seguros de indemnização, isto é, geram uma indemnização quando a causa primária de um determinado dano tem enquadramento no âmbito de cobertura de um contrato de seguro. Por norma, é necessária a verificação, em data posterior à ocorrência, da efetiva existência de danos, de modo a habilitar o segurador a estimar e determinar a magnitude da perda associada e a evitar fraudes. Todo este processo pode ser demorado, podendo inclusive ser superior a um ano em sinistros de maior dimensão, afetando severamente a liquidez imediata do segurado ou sinistrado. 

Um seguro paramétrico funciona de modo distinto, garantindo uma compensação no caso de ocorrência de um evento e não de um dano propriamente dito. Para tal, recorre a um índice ou conjunto de índices pré-determinados e acordados entre segurador e segurado, cujos valores apresentam um "limiar” o qual, uma vez atingido ou ultrapassado, dá direito a indemnização que pode aumentar progressivamente até atingir o limite máximo previsto na apólice.  O índice de referência, ou conjunto de índices, deve ser correlacionável com a causa do evento e mensurável com recurso a informação disponível publicamente, e produzida por terceiros, usualmente com recurso a tecnologia sofisticada, tal como imagens de satélites, radares meteorológicos, sensores e centrais meteorológicas, entre outros. E será modelizado com recurso a grandes quantidades de dados – "Big Data” – e algoritmos de inteligência artificial. 

Com base nestes dados, em caso de ocorrência de um evento seguro, o segurador paramétrico facilmente determina se o "limiar” do índice foi ultrapassado, sem necessidade de recurso a peritagens de sinistros, e rapidamente processa a indemnização auxiliando assim o segurado quando mais ele precisa de liquidez, no imediato após o sinistro. Aliás, já se verificaram casos de indemnizações em contratos de seguros paramétricos "inteligentes”, com recurso a tecnologia blockchain, processadas em poucas horas após o gatilho do índice coberto ter sido ultrapassado.   

Complementarmente, num seguro paramétrico não existe a aplicação de franquias. 

É de realçar que a oferta atual de seguros paramétricos apresenta uma grande flexibilidade e diversidade. Ondas de calor extremo, seca, incêndios florestais, baixo caudal em rios navegáveis, geadas, granizo, insuficiente radiação solar ou menores níveis de vento, são exemplo de coberturas possíveis de contratação. Em princípio, qualquer evento que possa gerar uma perda de exploração para uma organização ou estado, pode ser garantido por um seguro paramétrico desde que exista um índice associado. 

 

2 - Como é feita a contratação de um risco paramétrico? 

O setor de seguros paramétricos é o pináculo dos seguros personalizados, à medida.  

Num ato de colaboração e partilha, o segurado, o seu intermediário de seguros e o segurador paramétrico identificam e determinaram: quais os riscos a que o segurado se encontra exposto e que podem ser mitigados para o contrato de seguro; quais os níveis de exposição a garantir via determinação de limite de indemnização; quais os índices que podem ser utilizados para verificar a ocorrência de um evento coberto e respetivas fontes de dados, incluindo a tecnologia a utilizar para a obtenção de tais dados e, ainda, a sua modelização de modo a determinar as probabilidades de ocorrência do evento a ser segurado.  

 

3 – Que tipo de empresas mostra interesse em Portugal pelos seguros paramétricos

Antes de mais, um seguro paramétrico não deve ser utilizado como um substituto de um seguro tradicional, mas sim como um complemento. Dito isto, assiste-se a um aumento contínuo na procura por parte do setor agrícola face a eventos climatéricos, até porque existem algumas culturas não seguráveis por intermédio do tradicional seguro de colheitas, como é o caso de produção da planta de cannabis para fins medicinais, setor em expansão no território português.  

Paralelamente, e dado o seguro paramétrico poder ser utilizado como ferramenta para combater o atual ambiente de endurecimento de taxas de seguros, várias empresas de grandes dimensões tentam transferir parte da sua exposição catastrófica, nomeadamente a fenómenos sísmicos, do seu programa de seguros tradicional para um programa de seguros paramétricos, obtendo reduções nos seus prémios globais de seguros. 

Existe também bastante interesse do setor das energias renováveis, que está sujeito à volatilidade do clima e ao consequente impacto nos níveis de produção energética.   

 

4 - As médias empresas estão conscientes da existência deste tipo de seguro e as vantagens? 

Apesar de existirem há mais de uma década, os seguros paramétricos ainda são desconhecidos para a  maioria da das organizações, independentemente da sua dimensão. 

Ainda são poucos os seguradores que atualmente comercializam seguros desta tipologia, o que restringe bastante o alcance dos mesmos e o respetivo "insurance awareness” a nível nacional, isto num país já de si com elevados níveis de iliteracia em matéria de seguros. 

Existe um longo caminho a percorrer em matéria de divulgação de seguros paramétricos, até porque um dos obstáculos à sua comercialização prende-se com o ceticismo dos consumidores, mais habituados aos tradicionais seguros de indemnização. 

 

5 – Existem informações sobre índices suficientes em Portugal para um risco com base nas alterações climáticas? 

Existe uma miríade de dados disponíveis em Portugal para os mais variados índices possíveis, registando-se neste momento um importante salto tecnológico com a ERA 5, a qual permite uma a adequada correlação entre coordenadas geográficas e valores dos índices.  

De particular relevância para Portugal, a ERA5 é a mais recente reanálise climática produzida pelo ECMWF (Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo), fornecendo dados horários sobre múltiplos parâmetros atmosféricos, de superfície terrestre e de estado do mar, juntamente com estimativas de incerteza. Os dados estão disponíveis em grelhas regulares de latitude-longitude a 0,25º x 0,25º de resolução, com parâmetros atmosféricos em 37 níveis de pressão. A ERA5 abrangerá o período desde 1950 até ao presente. Os dados deverão tornar-se gradualmente disponíveis em 2022. 

 

6 – Estes índices são alterados anualmente, tendo em conta a mudança das condições subjacentes aos índices, caso das alterações climáticas? 

Estamos a assistir a evoluções tecnológicas contínuas tanto ao nível do surgimento de novos dados e índices, como de novas tecnologias para obtenção de informação e respetiva modelização, o que está a permitir ao setor dos seguros paramétricos adaptar-se e adequar-se ao contínuo e crescente impacto das alterações climáticas, estando também numa posição privilegiada no auxílio à mitigação deste risco.  

 

7 - Como é que a indústria seguradora tem respondido às alterações climáticas? 

O setor segurador está a posicionar-se na linha da frente no combate às alterações climáticas. Se, por um lado, este fenómeno é uma clara ameaça às margens de solvência da indústria seguradora, por outro lado, o setor poderá ter um papel determinante no aumento dos níveis de resiliência da sociedade.  Atualmente já se verificam alianças entres os principais grupos seguradores e resseguradores a nível internacional visando a total descarbonização dos seus portefólios até 2030, o que tem levado, por exemplo, a que inúmeros novos projetos de construção no setor dos combustíveis fósseis não consigam contratar seguro. São também elevados os níveis de investimento por parte do setor em fundos e obrigações "verdes”.  

Mas ainda há trabalho a fazer. Os seguradores dispõem de bastante informação histórica sobre eventos climatéricos e respetivo impacto das alterações climáticas, pelo que poderão trabalhar em conjunto com os órgãos de decisão de modo que, por exemplo, a utilização de solo pela população seja efetuada em locais de menor vulnerabilidade às alterações climáticas e com recurso a tecnologias que minimizem a pegada ecológica. 




Nuno Rodrigues, Diretor de Riscos Patrimoniais e Engenharias da MDS Portugal
Publicado no Jornal Económico
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