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É, muitas vezes, na adversidade que está a oportunidade.

31.10.2025
É, muitas vezes, na adversidade que está a oportunidade.
É de pensamento efervescente, mas defende um crescimento sustentável e com propósito. Ricardo Pinto dos Santos, CEO da MDS Portugal, destaca a importância de cuidar do capital social das organizações e de deixar um legado de valores como a seriedade e a integridade. À Villas&Golfe falou do lado mais pessoal da vida de um CEO e do seu gosto arrojado…por cintos.

Quando acorda de madrugada a pensar em trabalho, em que pensa exatamente?

Acordo sistematicamente com temas de trabalho. É evidente que isso decorre da responsabilidade que se tem, da complexidade e quantidade de temas, é inevitável. É normalmente sobre a agenda do dia e o desafio da entrega, do atingimento das metas da empresa.

Qual o momento da sua carreira que mais o desafiou enquanto líder? Como transformou essa experiência em aprendizagem e crescimento?

É difícil destacar apenas um momento, quando já se tem 30 anos de carreira. Mas há claramente dois que se destacam: um na empresa onde trabalhei anteriormente, também um corretor de seguros, que foi a infelicidade do falecimento de um líder, na sequência do qual tive de assumir a condução informal da equipa. Foi uma passagem abrupta, na qual houve necessidade de acalmar a ansiedade e manter a estabilidade da equipa. Naquele momento alguém tinha de assumir o papel de agregador. Isto também me fez conseguir ter um pensamento mais estratégico perante um momento mais vulnerável da empresa. Foi uma fase desafiante, marcante e estruturante na minha carreira. Na verdade, sempre que dei grandes saltos na minha carreira, todos estiveram associados a um momento disruptivo.

Destaco também outro momento, também transformacional, que é a chegada, anos mais tarde, à MDS, já com uma posição de liderança. A entrada na MDS fez-me entrar num mundo muito diferente: uma empresa com mais pessoas e muito competentes e com uma dimensão muito maior do que aquela que eu liderava, com tudo o que isso tem de bom e de desafiante. Foi um mundo que me transformou e claramente fez a diferença na minha carreira.

O meu maior ensinamento ao longo do meu percurso profissional é que, muitas vezes, é na adversidade que está a oportunidade.

"[…] SEMPRE QUE DEI GRANDES SALTOS NA MINHA CARREIRA, TODOS ESTIVERAM ASSOCIADOS A UM MOMENTO DISRUPTIVO."

Houve momentos em que o peso da sua função, como líder de uma organização multinacional, impactou mais a sua família? Como conseguiram equilibrar essas fases?

Só com paciência e tolerância da família é que se faz uma boa gestão entre a vida pessoal e profissional. Não se consegue simplesmente desligar o interruptor à sexta-feira ou à noite, principalmente quando se ocupam posições de liderança. Há comportamentos típicos do ambiente de trabalho que acabam por se transportar para casa. Mas procuro sempre ouvir as chamadas de atenção e agir, pois considero que é fundamental ter uma vida pessoal equilibrada para se ter um bom desempenho profissional.

Em que espaços se sente mais criativo: numa sala de reuniões, num avião ou a caminhar sozinho?

Tendencialmente, sinto-me mais estimulado em contexto de reunião. Tenho um lado relativamente rápido e perspicaz nessa perspectiva. Não sei se isso me torna mais criativo ou estimulado do que quando estou em silêncio. Acho que os dois, com estímulos diferentes, levam a resultados diferentes. Num avião transatlântico tenho um pensamento mais sereno, mais estruturado. Mas o pensamento da reunião traz efervescência e eu gosto mais de ambientes efervescentes.

"É FUNDAMENTAL TER UMA VIDA PESSOAL EQUILIBRADA PARA SE TER UM BOM DESEMPENHO PROFISSIONAL."


Como é que a MDS está a integrar a inteligência artificial nos seus processos para se manter competitiva?

Na MDS apostamos, desde sempre, na inovação e tecnologia e há duas dimensões centrais nas quais temos aplicado a inteligência artificial. Uma é claramente na componente operacional. É um processo ainda relativamente recente para todos, mas na MDS já temos várias áreas onde estamos a usar a IA para melhorar a eficiência operacional, por exemplo, no tratamento de correspondência de clientes, de dados e ficheiros.

Por outro lado, estamos a implementar a IA no desenvolvimento de negócio, numa componente mais analítica, através de modelos preditivos, ou seja, para prever comportamentos de propensão de compra.

Que peça de roupa ou acessório é quase uma extensão da sua identidade?

Eu escolheria sapatos e cintos. Tendencialmente sou uma pessoa conservadora e formal, mas sempre gostei, desde miúdo, de coisas diferentes. Fui mudando com a idade, mas gosto de ter o meu toque de personalidade, portanto os sapatos são tendencialmente todos muito clássicos, mas os cintos são irreverentes (alguns com missangas, outros com croché e muita cor…).

A utilização dos dois em simultâneo caracteriza-me. O cinto revela o meu lado mais descontraído, arrojado, e bem resolvido.

Há algo que o mundo empresarial valoriza e que considera profundamente sobrevalorizado?

O crescimento permanente e sistemático e o foco no curto prazo. Hoje as empresas vêm-se reféns da entrega constante de resultados, o que leva a casos de «obsessão» pela eficiência, distanciando-nos das pessoas e da importância do capital social das empresas.

Hoje os gestores têm pouco espaço para isso. Perdeu-se nas empresas o que existia antigamente, do contributo para o desenvolvimento das comunidades, por exemplo, com a criação de cantinas, creches ou bolsas de estudo. O dinheiro também serve para fazer bem à sociedade. O crescimento e o lucro são importantes, mas em equilíbrio com este papel social.

Na MDS, apesar das exigências de crescimento, preocupamo-nos com esta dimensão social.

Qual o legado que ambiciona deixar na empresa e na sua vida pessoal?

Na perspetiva pessoal, preocupo-me com a formação dos meus filhos. O maior legado que quero deixar-lhes são os valores. Que sejam, acima de tudo, boas pessoas. Se além disso forem bons estudantes e excelentes profissionais, melhor ainda — mas o essencial é que sejam boas pessoas.

Desejo deixar uma marca assente em valores reconhecidos por todos — respeito, seriedade, proximidade e integridade — tanto no plano pessoal como no profissional. É gratificante perceber que os nossos parceiros reconhecem estas características na MDS.

Ouvir alguém dizer: «Lembras-te daquela fase em que havia um grupo de pessoas bons profissionais, íntegros e competentes que se destacaram e marcaram a indústria?» — isso, para mim, é o maior legado.

Qual foi o último livro que leu e que o fez parar para pensar na sua própria vida?

Há livros que me marcaram de diferentes maneiras, mas destaco dois que também tiveram impacto na minha vida profissional: o livro sobre Steve Jobs, fundador da Apple, e o livro sobre Tim Cook, o seu sucessor.

Gosto de os relacionar. Por um lado, o do Steve Jobs faz pensar pela capacidade de ver, pela sua coragem e loucura, pela capacidade de fazer coisas tão bonitas, mas num modelo de gestão que não é o mais correto, ainda que com a obsessão por garantir que as pessoas tinham as condições certas para «performar».

Já o Tim Cook trouxe equilíbrio às equipas, tolerância ao erro e à adaptação, um lado de sensibilidade e de cuidador, e não perdeu valor nos mercados acionistas.

O ideal numa posição de liderança é ter uma combinação dos dois: reconhecer que é crucial a efervescência e um espírito «selvagem» que vê mais além, mas sempre em equilíbrio com a sustentabilidade e a estabilidade das equipas.

"NA MDS, APESAR DAS EXIGÊNCIAS DE CRESCIMENTO, 
PREOCUPAMO-NOS COM A DIMENSÃO SOCIAL."

Entrevista publicada na revista Villas&Golfe